Eu nunca vou conseguir ver o Daniel Radcliffe sem pensar no Harry Potter. Nunca. Nem se ele se transformar no novo Jack Sparrow. Isso porque quando alguém cresce interpretando um personagem é o personagem que cresce nele, os trejeitos não mudam, se constroem. O que não faz de Radcliffe um ator tão ruim, só mais um ator marcado. Quando comecei a ver “Será que?” a marca dele se reafirmou. O personagem é o mesmo e Radcliffe não consegue emplacar um bom romance nem com Cho, nem com Gina, nem com Chantry. Sabe aqueles filmes que quando o protagonista se revela apaixonado pela protagonista você sente um nó na garganta? Então, isso não acontece quando ele é o Radcliffe. E é exatamente por isso que ele combinou tanto com o Wallace de "Será que?". Na trama Wallace está sozinho desde que a namorada o traiu há um ano. Ele está chateado? Bravo? Se sentindo traído? Não, ele só seguiu em frente sem esboço de sentimento algum. Um dia ele conhece Chantry (Zoe Kazan) e eles viram amigos. E ele continua querendo ser só amigo dela mesmo quando Chantry revela que namora há cinco anos com o bambambam das galáxiasONU, que cozinha e é um cara super bacana. Obviamente Wallace entra naquela Friend Zone não tão Friend assim, mas que todo mundo finge que é só Friend pra não causar intriga cedo demais. Área com Spoiler. Pare aqui se não quiser saber como a coisa termina. O que normalmente acontece nesses filmes? 1. O namorado não é tão perfeito, pisa na bola e Chantry fica com Wallace 2. Wallace e Chantry têm um caso,ela se arrepende, a amizade nunca mais é a mesma e na última cena os dois se reencontram após anos, sentem o constrangimento no ar e vão embora(Poderia ter “3. Wallace sofre, esquece Chantry e segue a vida”, mas aí não teria motivo para fazer esse filme porque já existe e chama 500 Dias Com Ela.)O que as duas opções acima têm em comum fora estarem no roteiro de 98% das comédias românticas? São drásticas. Sempre tem um rompimento dramático para algum lado. Mas foi exatamente aí que a falta de potencial para demonstrações amorosas do Radcliffe encontrou seu sentido na vida. O namorado da Chantry continua sendo perfeito, o Wallace não tenta nada com ela e mesmo após um momento de coragem para dizer tudo o que sente ele volta a ser o protagonista sem sal e deixa a garota seguir a vida. E ela casa com o namorado perfeito? Não. Ela termina com ele e fica com o Wallace? Sim. Por que, se o namorado não fez nada, era perfeito e o Wallace sem sal? Porque ela quis.(Eu, sinceramente, torci pelo namorado perfeito. Ele era bem mais legal, seu único defeito era não ter matado o Voldemort.)Mas felizmente -para algumas pessoas- infelizmente -para outras- a vida está cheia de rompimentos não dramáticos e inexplicáveis, que estão aí só para fazer todo mundo se perguntar: por que? Portanto, “Será que?” é um filme tão sem sal quanto um Radcliffe apaixonado, mas conseguiu escapar do óbvio e ficar mais real, então vale às 1h40 perdidas se você não tiver nenhum Harry Potter para assistir.
domingo, 28 de junho de 2015
Um ator sem amor
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terça-feira, 16 de junho de 2015
Jurassic World: a variação tecnológica da receita
Um homem que não tem com que gastar dinheiro cria um parque de diversões inovador. No lugar de montanhas-russas ele tem dinossauros. Entre os visitantes há familiares menores de idade e o escolhido para analisar as atrações segue a linha Indiana Jones. Há também alguém ambicioso, querendo ganhar vantagem naquilo tudo e, claro, um dinossauro cheio de dentes tocando o terror. Resumidamente, estamos falando de Jurrasic Park, 1993. Não, péra. Estamos falando de Jurassic World, 2015. No fim, a receita é a mesma, o que muda é a tecnologia. Obviamente seria difícil desbancar o clássico de Steven Spielberg de 1993. Ninguém conseguiu, nem mesmo as sequências O Mundo Perdido (1997), que receberia no máximo uma classificação ‘boa’, e Jurassic Park 3 (2001), que beira a classificação ‘sessão da tarde’. Eu vi o filme de 1993 pela primeira vez em um VHS. Zero glamour, TV pequena, som mono, tudo analógico. Mas desde o momento em que vi meu primeiro dinossauro em CGI -já que antes meu imaginário pré-histórico era formado pela animação Em Busca do Vale Encantado (1988)- eu nunca mais enxerguei um dinossauro que não fosse de Spielberg. Jurrassic Park não serviu só para fazer o espectador acreditar na existência desses animais, mas deu até aos pesquisadores algo para se instigar. Até 1993 ninguém imaginava como um dinossauro andava, com o que soava, os movimentos que fazia. Foi a equipe de Spielberg que deu isso ao mundo e o mundo agradeceu tornando os dinossauros de Spielberg referências fora da tela. Como superar um feito desses? Repetindo-o. Jurassic World, que chegou aos cinemas na última semana, recria a mesma história do primeiro longa, com a ressalva de que o parque finalmente abriu e abriu 20 anos depois. Claro que a produção não poderia repetir a receita do T-Rex destruidor, que depois de tanto tempo ficou menor e menos assustador que muito arranha-céu por aí. Eles precisavam de novidade, algo maior, que despertasse o medo e a curiosidade da geração de hoje. Então surgiu a Indominus Rex, a versão mais assustadora do T-Rex com requintes genéticos. Filha da mistura em laboratório de tudo o que é grande, mortal e cruel, ela mata por esporte e não só enxerga movimento como sente vibrações térmicas (Chupa, T-Rex!). E para os fãs um pouco mais apaixonados e que acabaram tendo tanto medo no passado que desenvolveram amor pelos velociraptores, o que é o meu caso, o filme é um deleite. A proposta de que pode haver respeito entre um humano e um dinossauro dá aquela empatia ao longa que a gente sentiu quando viu o Tricerátops doente no primeiro filme, quando você acha que pode SIM ter um dinossauro de estimação, ainda que ele queira te comer. Jurassic World é a receita transgênica de Jurassic Park que ficou tão boa que já se tornou a maior estreia da história de Hollywood! A resposta nas salas de exibição é o resultado de vinte anos de evolução tecnológica do cinema, que permitiu ao espectador voltar a 1993 sem precisar sair de 2015. Na trama, passaram duas décadas desde o fechamento do primeiro parque e já se vão 20 anos desde a estreia do primeiro filme. O tempo que separa as produções foi muito bem utilizado para o sucesso delas e para que, mais uma vez, recriar dinossauros fizesse sentido.
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domingo, 4 de janeiro de 2015
Um mito, um divisor de águas e o poder do boca a boca
2014 não foi um ano de muitas publicações... Tá, não foi ano de publicação nenhuma. Mas ainda assim alguns trabalhos foram desenvolvidos. Esse foi um texto que fiz por encomenda para a revista digital LIBRE!. Um pouco tarde, mas, para fãs de Tarantino, antes hoje do que nunca.



Eu tinha sete anos e pouco lembro sobre o que prende a atenção de uma criança com essa idade, mas posso garantir que uma estreia de cinema – a menos que fosse a de O Rei Leão (Disney, 1994) –não seria a opção mais tentadora. No entanto, eu me lembro de Pulp Fiction – Tempos de Violência. Claro que hoje eu não poderia contar com clareza como foi que tudo aconteceu, mas é por isso que a criança de sete anos de 1994 encontra a mulher de 27 em 2014 para completar essas lacunas. Afinal, são vinte anos de um filme que não só mudou a história do cinema, como instituiu o mito Quentin Tarantino. Pulp Fiction foi o segundo longa do diretor americano, que estreou nas telonas com Cães de Aluguel (1992). O primeiro filme já havia causado um reboliço em Hollywood e colocado o nome de Tarantino em evidência, mas as seis indicações ao Oscar (em que levou a estatueta de Melhor Roteiro Original) e a Palma de Ouro recebida em Cannes em 1994 o fizeram fincar a bandeira territorialista no letreiro de Hollywood e seu nome na calçada da fama. Com Tempos de Violência Tarantino fez o que antes ninguém havia feito: estabeleceu o cinema independente no cartel cinematográfico. O longa custou $8 milhões para ser produzido e rendeu $200 milhões nas bilheterias mundiais. Foi um escândalo! E não é maneira de falar. A banalização da violência no filme virou assunto no mundo todo e o boca a boca foi o maior responsável por lotar as salas de exibição. Ainda hoje há quem não aceite o sangue derramado desordenadamente por Tarantino, que só perde o posto de diretor sanguinário para Martin Scorsese, que tem até uma cor própria, “o vermelho Scorsese”. Pulp Fiction teve até a repercussão comparada a outro clássico marcado pela violência: Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971), e os contextos e épocas eram bem diferentes. Obviamente que com sete anos eu não era apta a ver o filme no cinema, mas lembro perfeitamente da silhueta de Uma Thurman e John Travolta dançando em uma chamada na TV aberta anos depois, quando o longa ia ser exibido. “O filme que chocou o mundo”, “o sucesso de bilheteria”, “o fenômeno mundial” eram as manchetes que incitavam as pessoas a assistir. Eu não gostei do filme, sinceramente, no entanto nunca mais esqueci a cena da dança. Mas não virem a página! Eu tinha apenas oito, nove anos. É de se compreender que uma criança não se sinta afetada pela sedução tarantinesca a primeira vista. Ou a segunda. Ou até mesmo 20 anos depois. Sejamos claros, salvo os últimos grandes longas do diretor -Bastardos Inglórios (2009) e Django Livre (2012)-, que tiveram um roteiro um pouco mais linear, Tarantino não é lá um dos contadores de histórias mais fáceis de engolir. Tomando como princípio Pulp Fiction, eu sempre imaginei a tortura de quem teve que criar uma sinopse para o filme: “Uma dupla de assassinos profissionais, que trabalha para um poderoso gângster, que se vê envolvido em uma situação constrangedora por perseguir um homem que lhe passou a perna, que tinha um relógio importante, que nada tem a ver com a esposa do gângster que é convidada para sair com um dos assassinos profissionais, mas não devia se envolver com drogas e tem um casal que apareceu na primeira cena e... Quem são eles mesmo?” A chamada na TV deveria se resumir no máximo em “se metem em uma grande confusão!”, ainda que confusão explique melhor do que as linhas acima. Portanto, é preciso paciência e bagagem cultural para assistir Tarantino, e eu não falo sobre seus diálogos de dez minutos ininterruptos sobre hambúrgueres em Pulp Fiction, falo sobre a falta de linearidade e a profundidade dos seus roteiros malucos que começam sem pé nem cabeça e terminam prendendo escandalosamente a nossa atenção. Tempos de Violência é uma aula de cinema que vai além do Mise-en-scène. As referências à outros filmes e personalidades que fizeram parte da história da Sétima Arte e de outras artes são incontáveis: Marilyn Monroe, Elvis Presley, Martin & Lewis, Amos and Andy, Mamie Van Doren todos eles em apenas em uma cena. Até Ringo Starr, ainda que alguns o considerem o Beatles menos importante, teve seu nome lembrado. Quentin Tarantino é um apaixonado pelo cinema, o dos outros e o dele. É possível cruzar takes de Pulp Fiction com Kill Bill (2003, 2004), Cães de Aluguel, A prova de Morte (2007), Jackie Brown (1997) e provavelmente com todos os outros filmes do diretor. No fundo, ele gosta de criar próprias referências mais do que se referir a outros. E é por isso que não se assiste a filmes de Tarantino, você estuda-os. Porque para gostar de um longa desses requer-se um conhecimento prévio de outros tantos filmes que, sem essa bagagem, provavelmente o roteiro que começa sem pé nem cabeça iria terminar perdendo o resto do corpo e ser apenas um escândalo, sem sinopses. Em 2014 Pulp Fiction comemora 20 anos como lenda do cinema, um divisor de águas que rompeu os rótulos que não permitiam que um filme pop fosse visto como clássico, que deu identidade ao cinema independente e criou o estilo Tarantino de fazer cinema: uma assinatura, uma marca mundial. Ainda hoje a película permeia centenas de listas de melhores filmes da história e provavelmente não perderá muitos lugares nos próximos 20 anos. Um viva ao cinema, a Pulp Fiction e ao gênero Tarantino.**Texto encomendado para a revista digital LIBRE! em setembro de 2014.



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domingo, 15 de dezembro de 2013
A plastificação da Terra Média
Em "O Hobbit: A Desolação de Smaug" Peter Jackson apresenta um mundo esteticamente tão perfeito que deixa de ser Terra Média para virar obra de arte
Em 2002 quando encarei uma fila de empolgação e gente na porta do cinema para ver o primeiro O Senhor dos Anéis havia em mim uma expectativa que apenas outro livro despertou: Harry Potter. O que as duas ficções me causavam em comum era a vontade de viver aquilo que, de alguma forma, eu conseguia ligar a minha realidade, fosse imaginando que um dia houve nesse mundo uma Terra Média, fosse pensando que havia bruxos nos fazendo de 'trouxas'… e que minha carta de ingresso em Hogwarts foi extraviada, talvez. O que Peter Jackson, diretor do segundo longa da trilogia O Hobbit, fez comigo nesse novo filme foi encantador e ao mesmo tempo frustrante. Infelizmente o ponto ruim, a que me refiro nesse texto, é que nas 2h41 de longa Jackson arremessou de um penhasco toda a minha alma medieval e cuspiu na minha cara dizendo: Isso é um filme foda que provém de um livro de ficção, criança, agora volte para a sua realidade feia. Sinopse. A história entra pela porta deixada aberta no final do primeiro longa. Após iniciar sua jornada ao lado de um grupo de anões e de Gandalf (Ian McKellen), Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) segue em direção à Montanha Solitária, onde deverá ajudar seus companheiros de missão a retomar a Pedra de Arken, que fará com que Thorin (Richard Armitage) obtenha o respeito de todos os anões e o apoio na luta para retomar seu reino. O problema é que o artefato está perdido em meio a um tesouro protegido pelo temido dragão Smaug (voz de Benedict Cumberbatch). Ao mesmo tempo, Gandalf investiga uma nova força sombria que surge na Terra Média. -Via adorocinema.com.br Plástica. Logo no início do filme a qualidade visual me incomodou tanto que tive a sensação que Thorin era perseguido por duas bonecas na estalaria do Ponei Saltitante. A cena, que pouca importância tem para o resto do filme, mostra como o anão e Gandalf se conheceram e, como em tantas outras, inclui o espectador em uma história não contada no livro, mas que, por vezes, ajuda a criar um contexto que nos leve a trama de "O Senhor dos Anéis". Não é o caso específico dessa cena, podiam jogar ela fora. De qualquer forma estou certa de que a sala de cinema que escolhi para assistir ao "O Hobbit: A Desolação de Smaug" tem grande parte da culpa de toda a minha frustração, mas se é para ser um dos melhores filmes do ano, que seja visto mesmo em tecnologia Imax. O fato é que a perfeição daquela Terra Média criada pelo diretor de fotografia Andrew Lesnie é tão deslumbrante que não cabe, para mim, no peso das cenas. Tudo se torna tão plástico que até meus olhos se acostumarem eu tinha certeza de estar assistindo a um jogo de videogamente em high definition. Some a isso uns ângulos de câmera esquisitos (ar de erro de movimentação, com direito a perda de foco e até uns chicotes) mais as passeadinhas na montanha-russa da grua para mostrar quão esteticamente lindos eram os cenários a cada nova cena e pronto, já podem vender o jogo pro PS4. O tratamento de imagem foi feito de forma tão plástica que acredito que não reconheceria nenhum ator do filme se tropeçasse nele na rua. A tecnologia construiu algo tão perfeito que perdeu a conexão que poderia haver com o real e até a sujeira das unhas dos anões é artisticamente bonita. Pura obra de arte que incomoda. Até você se acostumar. Depois disso não há palavras para descrever o desenrolar de A Desolação de Smaug. Ao contrário do primeiro longa “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada”, esse conseguiu equilibrar perfeitamente o longo tempo que o diretor possuia com a ação e a história escrita por J.R.R. Tolkien. As inserções de personagens que remetem a primeira trilogia ficaram mais fundidas que no primeiro filme e acredito que quem não leu O Hobbit e resolva fazer isso futuramente vai estranhar a ausência de Legolas (Orlando Bloom) na história. A própria elfa Tauriel (Evangeline Lilly) criada apenas para a trilogia, se encaixa bem a trama, mesmo que em um triângulo romântico forçado. Do meio para o fim do filme, quando finalmente nos deparamos com Smaug (ouso escrever que foi o melhor dragão já criado para o cinema - até o momento), a sensação é a mesma que Jackson causou no primeiro longa quando houve o encontro entre Bilbo e Gollum: você sente que esperou o dia todo para aquele momento e que sim, valeu cada minuto. É um êxtase não só crucial, como também responsável por fazer o espectador esquecer tudo que poderia não ter gostado do filme. Tanto o diálogo entre os personagens, quanto o final que rege a trama são de agradecer a tecnologia por poder ser usada para fazer cinema. É lindo, é sombrio, é de querer rebobinar. E termina num épico momento sem fim -como aconteceu no primeiro filme-, deixando todos os espectadores órfãos de um merecido “The End”, mas congelados na poltrona com a frase “I am fire. I am death”, que antecede os créditos finais. No fim, Peter Jackson, você pode ser até Monet se quiser. Do que eu estava reclamando mesmo? Destaque. As coreografias de luta são os pontos mais cômicos do longa, com atenção especial para a que reune Orcs, Anões e Elfos no rio.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
O hangover de Pacino, Walken e Arkin
Ontem um amigo me perguntou por que eu não parava de falar em “Stand Up Guys” (no Brasil chama “Amigos Inseparáveis”) e questionou o motivo de eu querer tanto mostrar o filme para ele. Listando as minhas considerações acabei por resolver fazer o mesmo para o blog, afinal, quem por acaso passa por aqui merece sair com pelo menos um filme para alugar que seja de convencimento meu. E de hoje em diante quando me pedirem dica de longas, sem dúvida, essa será uma. A história é a seguinte, Val acaba de cumprir 28 anos de prisão e no dia de sua saída é recepcionado por Doc, seu antigo parceiro do crime. A amizade dos dois é colocada em xeque, uma vez que Doc foi escalado por um líder criminoso para assassinar Val assim que saísse da cadeia. As últimas horas da dupla precisam, então, ser aproveitadas da melhor forma: drogas, mulheres, perseguições, roubos, pancadaria, tiros e a reunião de velhos amigos. Imaginemos o seguinte, “Hangover” ("Se Beber Não Case") é a franquia de comédia mais rentável dos últimos tempos, então temos em “Stand Up Guys” uma história no estilo “Hangover”, em que três grandes amigos têm menos de 24h para realizar vontades reprimidas. Mas calma, o que faz de “Stand Up Guys” um filme infinitamente melhor é a experiência contida nele. Inicialmente experiência etária. Todos os fanfarrões envolvidos têm mais de 70 anos, o que faz da história engraçada por si só, além de ter aquela pitada de responsabilidade e vivência que só os anos podem proporcionar. Eles não saem destruindo tudo como se não houvesse amanhã, eles saem dando lições de moral a muito marmanjo como se não houvesse amanhã. Continuando a falar de experiência, há um ponto que não carece discussão. Você tem Al Pacino, Christopher Walken e Alan Arkin protagonizando o longa. É de tirar o fôlego só de ver os caras juntos. Pacino com aquele olhar louco Scarface que é a única parte dele que não envelhece, Walken com seu jeito tão tranqüilizador que beira a psicopatia e Arkin que é sempre Arkin, que dá vontade de rir até quando está respirando por uma bomba de oxigênio. Para mim, o cara é o eterno avô da Little Miss Sunshine Olive, daquele filme sensacional que lhe rendeu um Oscar coadjuvante em 2007. Acredito que a experiência já seria suficiente pra me fazer querer ver o longa, mas para os cinéfilos mais exigentes eu ainda tenho outros motivos para indicar “Stand Up Guys”. Eu diria que os três personagens são RocknRollas para Guy Ritchie nenhum botar defeito. E olha que para eu dizer que alguém fora o Mark Strong é um RocknRolla precisa muito, já que o personagem Tio Archie (RocknRolla) é amor eterno substituído apenas por Tony Montana (Scarface) e Travis Bickle (Taxi Driver). Fora isso o filme tem um quê de Tarantino fenomenal. Não, não é Tarantino, mas por diversas vezes me lembrou o estilo “Cães de Aluguel”. O diretor, aliás, eu nunca tinha pesquisado e descobri que até vi uns filmes dele, mas só quando olhei bem a foto de Fisher Stevens percebi que a feição dele não me era estranha, o cara é conhecido por papéis secundários em diversos longas. Um momento especial para mim em “Stand Up Guys” foi a cena que remeteu ao meu filme preferido com Pacino desde a infância. Eu sei que todo mundo pensa no “O Poderoso Chefão”, mas não, é “Perfume de Mulher”. Quem gosta do longa tanto quanto eu também vai se emocionar no momento em que o velho Al Pacino convence uma jovem a conceder a ele uma dança. Não há o glamour do hotel luxuoso, nem as notas de “Por Una Cabeza” e a cena até poderia ser descartada do filme, mas para mim foi de uma nostalgia de dar sorrisos bobos para TV. Fiquemos então com a cena original de “Perfume de Mulher” como inspiração AQUI. Bom, e para finalizar a trilha de Stand Up Guys foi escolhida pelo Bon Jovi, já é a terceira vez que eu escuto toda ela hoje e a letra de Not running anymore está começando a me causar sensações esquisitas. Portanto, o filme vale para quem gosta de música, quem gosta de comédia, quem gosta de Tarantino, Guy Ritchie, de Pacino, Walken e Arkin ou para quem só quer ver um bom filme. “It’s time to kick ass, or chew gum. And guess what? I’m all out of gum.”TRAILER "STAND UP GUYS"
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sexta-feira, 7 de junho de 2013
Nas telonas: O quarto Gatsby
Quando Baz Luhrmann colocou Nicole Kidman sentada em uma balanço, no meio de um Cabaré, cantando, o mundo presenciou a cena de um dos filmes mais belos já produzidos para o cinema. Como qualquer musical, houve quem suspirou e quem praguejou, mas ninguém pode dizer que “Moulin Rouge – Amor em Vermelho” (obra de 2001, indicada a seis Oscar e vencedora de duas categorias) não é de uma beleza de encher os olhos. Antes de “Moulin Rouge” o diretor australiano já havia se arriscado na paleta de cores e no seu gosto para trilhas ao dirigir “Romeu e Julieta”, em 1996, uma versão mais atual do drama clássico de William Shakespeare e que tinha no papel principal o galã Leonardo DiCaprio. O longa não era um musical, mas tinha na direção de arte e na trilha sonora todo um aparato eloqüente para prender o espectador durante suas 2h de duração. Agora mais maduro e reconhecido na sétima arte, Luhrmann volta aos cinemas para mostrar que continua gostando das mesmas coisas que o fizeram ser lembrado em seus longas anteriores. Depois de “Austrália”, filme de 2008 que teve novamente Nicole Kidman como protagonista e que não causou a mesma repercussão das outras duas produções, Luhrmann decidiu fazer com “O Grande Gatsby” o que muitos diretores têm feito para manter-se no auge: recorrer a fórmula de retorno certo das adaptações literárias. O Grande Gatsby é considerado a maior obra do autor F. Scott Fitzgerald e um marco da literatura norte-americana. O romance faz um retrato dos anos 20, também conhecidos como a Era de Ouro, período fértil artisticamente (o início das grandes estrelas de Hollywood e o surgimento do jazz), com os avanços industriais (principalmente com a popularização dos automóveis, telefones e eletricidade) e uma demanda de consumo acelerada. Tudo isso é capturado no livro de Fitzgerald, que mostra a ascensão do bem sucedido Jay Gatsby, um recém-criado milionário de West Egg, que é completamente apaixonado por Daisy Buchanan, seu amor perdido ele anseia reconquistar. O problema e a solução de Luhrmann acabam por se encontrar em um mesmo lugar. “O Grande Gatsby” é tão famoso na literatura americana que já foi adaptado para o cinema três vezes, sendo a atual uma quarta reconstrução da história, o que tornou o projeto desde o início um possível fracasso em termos de crítica cinematográfica. Em 1927 quando Fitzgerald e a esposa foram assistir a uma prévia da primeira adaptação, Zelda Fitzgerald saiu da sala de projeção dizendo que o filme era “podre, horrível e terrível”. Mais de 20 anos se passaram até a segunda adaptação em estilo cinema noir e outros tantos vinte correram até o filme de 1974, que contava com o galã Robert Redford e a estrela Mia Farrow nos papéis de Gastby e Daisy e com um roteiro de, nada mais nada menos, que o poderoso chefão Francis Ford Coppola. Inicialmente a adaptação de 1974 tinha tudo que um grande filme precisava, nomes de peso e uma história que as pessoas queriam ver. Mas provavelmente se Zelda estivesse viva não teria um comentário muito diferente de “podre, horrível e terrível” para fazer com relação ao longa. “O Grande Gatsby” de 1974 tem um estilo clássico e é, não por poucas vezes, cansativo de ver. E os críticos continuam se perguntando quantas vezes Gatsby ainda irá transportar para a tela sua paixão louca por Daisy? Na trama, o garoto pobre cria para si um personagem em torno da fortuna para se colocar no plano da rica herdeira. Mas ainda assim há uma coisa que o dinheiro não compra, o sangue. Gatsby tem seu mundo inventado destruído pelo casal Tom e Daisy Buchanan pela quarta vez no cinema. Os personagens, aliás, não têm nada de normal. Tom pode ser rico de berço, mas é um refém de sua própria ignorância, enquanto Daisy remonta a perfeita mulher ingênua e usa isso como privilégio para não ter consciência do que faz. O único com ciência de tudo que acontece na trama é o narrador Nick Carraway, primo de Daisy. Debate Ainda que o passado condene a adaptação, a mais nova versão de “O Grande Gatsby” surpreendeu Hollywood ao render US$ 51 milhões (R$102 milhões) no seu fim de semana de estreia nos cinemas dos Estados Unidos, um exemplo claro do trabalho de marketing desenvolvido em torno do projeto. Quem tem acompanhado o universo cinematográfico sabe que as datas de estréia dos filmes não são escolhidas aleatoriamente, seguindo a finalização do projeto. Existem estudos que comprovam que, nos Estados Unidos, filmes lançados durante o verão recebem menos bilheteria que no período de inverno porque, por exemplo, ele é acalentado por fazer um aquecimento para o Oscar. “O Grande Gatsby” estava previsto pela Warner para estrear no fim de 2012 por ser basicamente um longa com ‘cara de Oscar’, não de Blockbuster. Quando a distribuidora resolveu mudar a estréia para o verão estadunidense muitos pensaram que ela havia desistido do sucesso da obra, o que provou ser completamente o contrário meses depois. Primeiro que a Warner tinha “Argo” que, não por menos, levou a estatueta de Melhor Filme no Oscar 2013. Segundo que o que se viu e ouviu após o adiamento da estréia de “O Grande Gatsby” foi provavelmente o grande responsável pelos números surpreendentes nas bilheterias. A verdade é que a Warner começou, desde então, a compartilhar curiosidades, informações e notícias sobre o filme nas redes sociais. A trilha sonora surpreendente para um filme de época - que conta com Jay-Z, Beyoncé, Lana Del Rey e Florence and the Machine em meio a ascensão do Jazz nos anos 20 – foi uma das mais buscadas pelos internautas, Leonardo DiCaprio voltou a ser foco de comentários e entrevistas e a presença dele no filme rendeu discussões infindáveis e o sucesso do livro veio a tona, tudo ao mesmo tempo. A conseqüência disso é que o debate chegou ao topo das mídias virtuais, das impressas e, porque não, do boca a boca. Mais uma prova de que a propaganda é realmente a alma do negócio. Versão “Nenhum fogo poderia destruir o conto de fadas que ele tinha em seu coração”, conta Tobey Maguire no papel de Nick Carraway ao descrever o Gatsby de Luhrmann. Enquanto Maguire ressurge em um papel de visibilidade que não vai tirar dele a sina de Homem-Aranha morno, mas que já é um avanço, Carey Mulligan é uma perfeita dama que, contudo, fica a mercê do elenco masculino da trama, que reúne toda a força do espetáculo. E “O Grande Gatsby” é tudo isso que Baz Luhrmann faz com maestria: um espetáculo bem conduzido. A primeira parte do filme recebeu inúmeras reclamações dos críticos por ser criada em torno dos artifícios de cabaré que fizeram de “Moulin Rouge” um sucesso com seu mundo de festas, plumas, maquiagens e paetês. A segunda parte tem o tom mais duro e, porque não dizer, trágico de “Romeu e Julieta”. E nas raras ocasiões em que o diretor permite que DiCaprio, Mulligan, Maguire e Joel Edgerton (que interpreta Tom, o marido de Daisy) ganhem espaço entre o figurino perfeito e a fotografia encantada, os quatro fazem um papel surpreendente. A trilha sonora é um espetáculo a parte e prova o quanto uma boa escolha musical faz diferença em um filme. Nem sempre a mistura entre o antigo e o novo de Luhrmann funciona, mas em “O Grande Gatsby” ele soube escolher bem seus representantes. Talvez se Zelda e Scott Fitzgerald estivessem vivos para ver essa quarta adaptação eles não sairiam do cinema tão desapontados. Claro que o conhecimento pessoal pesa um pouco mais quando a trama tem inspiração nas tragédias da sua própria vida, mas ninguém pode dizer que o trabalho não foi feito, e bem feito.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Esse tal João de Santo Cristo
Quem foi adolescente na década de 90 tinha duas obrigações irrefutáveis: alimentar o bichinho virtual e decorar a letra de Faroeste Caboclo, música da banda Legião Urbana. Não era uma época como agora, em que se abre um site, digita o nome da canção e logo recebe a ficha técnica com letra, cifra e vídeo referente no youtube. As opções para reunir os 168 versos da música com mais de nove minutos de duração se resumiam ao encarte do CD ou a alguém de bom coração e tempo livre que resolvesse transcrever e fazer cópias para os amigos. Composta em 1979 e lançada oficialmente em 1987 no álbum “Que País é Esse”, Faroeste Caboclo simbolizou toda a descrença no sistema governamental de uma geração que não saia mais para as ruas para protestar (como seus antecessores criados pela ditadura militar), mas que usava a letra do vocalista Renato Russo para mostrar que, embora não se envolvessem em manifestações, estavam indignados. Faroeste Caboclo virou uma bandeira a ser defendida e um hit de sucesso com ar revolucionário. Portanto não parece novidade a notícia de que a letra, que conta uma história com começo, meio e fim, se transformou em um filme. Foram 26 anos desde o lançamento da música mais famosa da Legião Urbana até 30 de maio de 2013, dia em que será lançada a adaptação de Faroeste Caboclo para os cinemas. O trailer do longa, publicado na internet no início de abril, recebeu mais de dois milhões de visualizações em menos de uma semana. Para exemplificar o que isso significa o sucesso de bilheterias “Tropa de Elite 2” teve apenas 930 mil visualizações no mesmo período. Trama Protagonizado por Ísis Valverde, Fabrício Boliveira e Felipe Abib, o longa é uma adaptação da música homônima. Ela narra a trágica história de amor entre Maria Lucia (Ísis) e João de Santo Cristo (Boliveira), rapaz de origem humilde que sai de casa em busca de uma nova vida, mas se envolve com o tráfico de drogas e começa a colecionar inimigos, entre eles Jeremias (Abib), com quem trava uma briga pessoal pelo amor de Maria Lucia. O roteiro do longa foi escrito por Marcos Bernstein (“O Outro Lado da Rua”) e Victor Atherino com auxílio do escritor Paulo Lins -autor do livro que gerou o sucesso Cidade de Deus- e a direção ficou sob a responsabilidade do estreante em longa-metragens René Sampaio. A Copacabana Filmes adquiriu os direitos de adaptação para o cinema da música em 2005 e depois de muito burburinho os fãs finalmente podem começar a se preparar para um filme que promete boas críticas. Adaptação Para o desespero dos fã-clubes do personagem João de Santo Cristo, a história, por mais fiel a letra de Renato Russo, também precisou de algumas mudanças para poder agregar sentido a trama. Afinal, o roteiro é uma adaptação e, como tal, precisou sofrer ajustes para se encaixar na nova mídia. O filme começa com a trajetória de João desde sua infância conturbada na Bahia até partir para Brasília. A composição de Renato Russo também segue a estrutura cronológica, mas não conta de forma detalhada a maneira que o protagonista conhece Maria Lucia e Jeremias. No longa, Jeremias e Maria Lucia fazem parte de uma turma de amigos que se conhece desde a infância e João entra no grupo ao se interessar pela garota. A partir de então a trama se desenrola como propõe a música e termina no trágico duelo entre ele e Jeremias por causa do amor da jovem. Renato Russo Ao falar sobre Faroeste Caboclo Renato Russo descreveu: “é uma mistura de "Domingo no Parque" de Gilberto Gil, e coisas do Raul Seixas com a tradição oral do povo brasileiro. Brasileiro adora contar história.” O autor da música morreu em 1996, no auge do sucesso da canção, aos 36 anos por causa de complicações causadas pela AIDS. Além de “Faroeste Caboclo”, os fãs também poderão acompanhar nos cinemas a trajetória de vida do artista pelo filme “Somos Tão Jovens”, em cartaz a partir do dia três deste mês. O longa, ao contrário do que muitos pensam, não é um documentário e sim uma obra ficcional. Tendo como diretor Antonio Carlos da Fontoura e no papel principal o ator Thiago Mendonça, o filme foi produzido no mesmo período de “Faroeste Caboclo” e pode ser um ‘aperitivo’ para os fãs mais impacientes. Curiosidades “Faroeste Caboclo” foi o último trabalho do ator Marcos Paulo, que faleceu em 11 de novembro de 2012 aos 61 anos, quando o filme já estava em pós-produção.*matéria publicada na revista Valeparaibano de maio/2013 Trailer do filme Faroeste Caboclo AQUI. Música AQUI.
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