Quem foi adolescente na década de 90 tinha duas obrigações irrefutáveis: alimentar o bichinho virtual e decorar a letra de Faroeste Caboclo, música da banda Legião Urbana. Não era uma época como agora, em que se abre um site, digita o nome da canção e logo recebe a ficha técnica com letra, cifra e vídeo referente no youtube. As opções para reunir os 168 versos da música com mais de nove minutos de duração se resumiam ao encarte do CD ou a alguém de bom coração e tempo livre que resolvesse transcrever e fazer cópias para os amigos. Composta em 1979 e lançada oficialmente em 1987 no álbum “Que País é Esse”, Faroeste Caboclo simbolizou toda a descrença no sistema governamental de uma geração que não saia mais para as ruas para protestar (como seus antecessores criados pela ditadura militar), mas que usava a letra do vocalista Renato Russo para mostrar que, embora não se envolvessem em manifestações, estavam indignados. Faroeste Caboclo virou uma bandeira a ser defendida e um hit de sucesso com ar revolucionário. Portanto não parece novidade a notícia de que a letra, que conta uma história com começo, meio e fim, se transformou em um filme. Foram 26 anos desde o lançamento da música mais famosa da Legião Urbana até 30 de maio de 2013, dia em que será lançada a adaptação de Faroeste Caboclo para os cinemas. O trailer do longa, publicado na internet no início de abril, recebeu mais de dois milhões de visualizações em menos de uma semana. Para exemplificar o que isso significa o sucesso de bilheterias “Tropa de Elite 2” teve apenas 930 mil visualizações no mesmo período. Trama Protagonizado por Ísis Valverde, Fabrício Boliveira e Felipe Abib, o longa é uma adaptação da música homônima. Ela narra a trágica história de amor entre Maria Lucia (Ísis) e João de Santo Cristo (Boliveira), rapaz de origem humilde que sai de casa em busca de uma nova vida, mas se envolve com o tráfico de drogas e começa a colecionar inimigos, entre eles Jeremias (Abib), com quem trava uma briga pessoal pelo amor de Maria Lucia. O roteiro do longa foi escrito por Marcos Bernstein (“O Outro Lado da Rua”) e Victor Atherino com auxílio do escritor Paulo Lins -autor do livro que gerou o sucesso Cidade de Deus- e a direção ficou sob a responsabilidade do estreante em longa-metragens René Sampaio. A Copacabana Filmes adquiriu os direitos de adaptação para o cinema da música em 2005 e depois de muito burburinho os fãs finalmente podem começar a se preparar para um filme que promete boas críticas. Adaptação Para o desespero dos fã-clubes do personagem João de Santo Cristo, a história, por mais fiel a letra de Renato Russo, também precisou de algumas mudanças para poder agregar sentido a trama. Afinal, o roteiro é uma adaptação e, como tal, precisou sofrer ajustes para se encaixar na nova mídia. O filme começa com a trajetória de João desde sua infância conturbada na Bahia até partir para Brasília. A composição de Renato Russo também segue a estrutura cronológica, mas não conta de forma detalhada a maneira que o protagonista conhece Maria Lucia e Jeremias. No longa, Jeremias e Maria Lucia fazem parte de uma turma de amigos que se conhece desde a infância e João entra no grupo ao se interessar pela garota. A partir de então a trama se desenrola como propõe a música e termina no trágico duelo entre ele e Jeremias por causa do amor da jovem. Renato Russo Ao falar sobre Faroeste Caboclo Renato Russo descreveu: “é uma mistura de "Domingo no Parque" de Gilberto Gil, e coisas do Raul Seixas com a tradição oral do povo brasileiro. Brasileiro adora contar história.” O autor da música morreu em 1996, no auge do sucesso da canção, aos 36 anos por causa de complicações causadas pela AIDS. Além de “Faroeste Caboclo”, os fãs também poderão acompanhar nos cinemas a trajetória de vida do artista pelo filme “Somos Tão Jovens”, em cartaz a partir do dia três deste mês. O longa, ao contrário do que muitos pensam, não é um documentário e sim uma obra ficcional. Tendo como diretor Antonio Carlos da Fontoura e no papel principal o ator Thiago Mendonça, o filme foi produzido no mesmo período de “Faroeste Caboclo” e pode ser um ‘aperitivo’ para os fãs mais impacientes. Curiosidades “Faroeste Caboclo” foi o último trabalho do ator Marcos Paulo, que faleceu em 11 de novembro de 2012 aos 61 anos, quando o filme já estava em pós-produção.*matéria publicada na revista Valeparaibano de maio/2013 Trailer do filme Faroeste Caboclo AQUI. Música AQUI.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Esse tal João de Santo Cristo
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Império Stark em contagem regressiva
Há poucos dias da estreia de "Homem de Ferro 3" o cine-rosebud traz um apanhado de toda a história para preparar vocês.
Os super heróis dos quadrinhos sempre tiveram seu espaço no cinema, mas nunca a categoria foi tão adaptada para as telonas. Hoje, entre filmes de suspense, comédia e ação, por exemplo, a “adaptação de HQ” já está praticamente listada como um gênero cinematográfico, com regras e estilos próprios. Não é por menos que 2013 está repleto dessas produções, elas são campeãs de bilheteria e resultam em um retorno, além de significativo, garantido para os exibidores. E esse bom resultado deve se repetir 26 de abril, quando acontece o lançamento de “Homem de Ferro 3” nos cinemas do Brasil. Nessa nova trama, o multimilionário Tony Stark, interpretado por Robert Downey Jr, vai enfrentar além de um inimigo a altura seus próprios pesadelos, literalmente. Stark deixa um pouco de lado seu egocentrismo e individualidade para nesse terceiro longa-metragem se tornar mais humano a partir do momento que teme não conseguir proteger sua namorada Pepper Potts (Gwyneth Paltrow). O vilão da vez é o Mandarim, transportado para as telas pelo vencedor do Oscar Ben Kingsley, que decide atacar tudo que Stark ama com força total, destruindo sua mansão e reafirmando seus pesadelos ao capturar Pepper. Para enfrentá-lo, o Homem de Ferro precisa superar seu medo de fracassar e definir se é a armadura que faz um herói, ou o contrário. Personagem. Tony Stark sempre foi o herói da tecnologia. Sem nenhum poder especial, o que o fez cair no gosto do público foi exatamente o estigma anti-herói que ele carrega: um homem cheio de defeitos e que utiliza o dinheiro para criar protótipos que o tornam super. Este novo filme pretende confrontar a realidade de Stark, obrigando o personagem a exigir mais de si, da sua inteligência, perspicácia e humanidade e, ao mesmo tempo, menos dos recursos tecnológicos. Desafio. Homem de Ferro 1 estreou nos cinemas em 2008 como o primeiro filme produzido pela Marvel Entertainment sem a participação de qualquer distribuidora. Isso aconteceu um ano antes de a editora ser vendida para a Disney por $4 bilhões (aproximadamente R$8 bilhões). Mesmo sendo pouco comentado no Brasil fora do universo das HQs, o primeiro filme causou um furor na sétima arte e foi praticamente um divisor de águas da velha e da nova geração de adaptações desse gênero para o cinema e o verdadeiro pontapé inicial para a super produção mais comentada de 2012, “Os Vingadores”. Até então apenas “Hulk” (2003) tinha sido lançado e não agradou completamente o público, mas a Marvel se redimiu meses depois de “Homem de Ferro 1” com o lançamento de “O Incrível Hulk” (2008). A partir de então foram produzidos “Capitão América: o Primeiro Vingador” (2011), “Thor” (2011) e finalmente a reunião de heróis mais comentada dos últimos anos –já que a Liga da Justiça continua praticamente engavetada- “Os Vingadores”, unindo Homem de Ferro, a Viúva Negra, o Arqueiro, Thor, Capitão América e Hulk. O desafio de “Homem de Ferro 3” é seguir a mesma linha de sucesso de “Os Vingadores”, o que não será uma tarefa fácil, já que mesmo o longa sendo o primeiro filme Marvel com distribuição Disney e foi a maior bilheteria da história do cinema brasileiro e a terceira maior do mundo. Em entrevista, o presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, explicou que, por mais que exista o desafio, a idéia não é superar o longa anterior. “Nós queríamos uma história com Tony Stark em foco, com sua vida destruída, ver como ele lida com um arquirrival sem poder contar com a armadura e devolvê-lo à caverna, metaforicamente, com uma caixa de tralhas, como no primeiro filme. Se fosse algo do tamanho de “Os Vingadores” acho que Shane (Black, diretor do longa) não se interessaria e não seria a pessoa certa para o trabalho. Mas para aprofundar a jornada pessoal de Tony Stark, Shane é o cara perfeito.” Origem (por Claudio Leyria).O Homem de Ferro foi criado pelo mestre dos super-heróis Stan Lee, com ajuda do irmão Larry Lieber, e com concepção visual dos desenhistas Don Heck e Jack Kirby. Sua primeira aparição foi no gibi “Tales of Suspense”, de março de 1963. Isso mesmo, o Homem de Ferro é um cinquentão. Quando foi lançado, fervia a guerra do Vietnã. E Stan Lee imaginou Tony Stark, um gênio da mecatrônica, inspirado no milionário americano Howard Hughes. Stark, em visita ao Vietnã a negócios, já que estava atuando no mercado de armas, acaba sendo atingido por uma explosão e estilhaços da bomba atingiram seu peito, ameaçando seu coração. Stark foi capturado e levado ao terrível Wong Chu, que o forçou a construir uma poderosa arma para os vietcongues. O engenheiro criou um sistema magnético para manter os estilhaços longe de seu coração e criou uma rudimentar, mas eficiente armadura, para se livrar dos inimigos. Isso tudo com a ajuda de Yin Sen, outro gênio prisioneiro. Sen ajuda Stark a fugir e isso lhe custa a vida. No cinema, no filme lançado em 2008, apenas o cenário mudou. Em vez de Vietnã, agora é Oriente Médio. Depois daquela primeira armadura que parecia um robô dos seriados dos anos 40, Stark foi se aperfeiçoando. Hoje, a lista de modelos já ultrapassa 20. Depois de anos comercializando projetos bélicos e entendendo melhor o valor da vida, principalmente porque Sen lhe deu a sua, Stark se torna o Homem de Ferro, herói a serviço da justiça, da lei e da ordem. Como acontece com a maioria dos personagens da Marvel, com o passar destas cinco décadas, o personagem foi sendo lapidado, se tornando mais humano. Para o Homem de Ferro, os roteiristas lhe prepararam um inferno pessoal originado pelo alcoolismo. Quem viu os dois primeiros filmes, sabe que um dia este vício vai lhe trazer muitos problemas. Nos quadrinhos, a bebida jogou Stark no fundo do poço, a ponto do Homem de Ferro ser assumido pelo amigo de Stark, o ex-militar James Rhodes, presente nos três filmes do cinema. Desde sua criação há 50 anos, o Homem de Ferro já ganhou várias séries de animação, afundou em um piloto de TV estilo "O Homem do Fundo do Mar" e teve vários games. Seu primeiro filme no cinema marca o início de produção cinematográfica pela própria Marvel (sem a infraestrutura dos outros estúdios, como acontecia desde "X-Men", de 1999). O auge do Homem de Ferro na telona foi sua participação destacada em "Os Vingadores". Futuro. Ainda esse ano a Marvel lança “Thor 2 - O Mundo Sombrio”. A sequência de “Os Vingadores” deve estrear nos cinemas apenas em 2015. Trailer de Homem de Ferro 3 Aqui.Críticas que já estão na rede: Omelete.Matéria publicada na revista Valeparaibano do mês de abril.2013
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Capas e matérias da série OSCAR 2013 do Viver&
Matéria de 24 de fevereiro do O VALE aqui.
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É HOJE!!!!! - Um ano para errar todos os pitacos
Sem unanimidades, surpresas podem apimentar festa 10 metros de largura e 150 metros de comprimento, o conhecido tapete vermelho chegou a Hollywood Boulevard na quinta-feira e foi colocado em seu devido lugar, o antigo Teatro Kodak, que hoje se chama Teatro Dolby. Com nove filmes indicados na categoria Melhor Filme, o Oscar 2013 possui algumas curiosidades. “O Lado Bom da Vida”, por exemplo, é o único filme da edição com chances de conquistar o “Big Five”, as estatuetas de Melhor Ator, Atriz, Diretor e Roteirista. Além disso, é o primeiro em 30 anos a ser indicado nas quatro categorias de atuação. Favoritismo. “Argo”, longa de Ben Affleck, é indicado em sete categorias, incluindo Melhor Filme, e é o favorito ao principal prêmio da noite. Também concorre na categoria Melhor Filme “As Aventuras de Pi”, que deve levar o Oscar de Melhor Fotografia e concorre ainda em outras 10 categorias. O filme custou U$ 120 milhões (R$ 240 mi) e já está entre as grandes arrecadações da história do cinema mundial, com US$ 576 milhões (R$ 1 bi). Steven Spielberg também disputa as principais estatuetas com o longa “Lincoln”, estrelado por Daniel Day-Lewis, favorito ao Oscar de Melhor Ator e que, se receber o prêmio, será o primeiro na história a conquistar três vezes a principal categoria de atuação. “Lincoln” é o filme com mais indicações dessa edição, somando 12 possíveis estatuetas. Também na disputa por Melhor Ator está Hugh Jackman por seu ex-presidiário que busca a redenção em “Os Miseráveis”. Jackman está impecável em sua atuação e, se levar o prêmio, será o primeiro a recebê-lo por um musical desde 1964, quando Rex Harrison fez “Minha Bela Dama”. Quentin Tarantino tem de novo o seu pupilo Christoph Waltz concorrendo ao prêmio de Ator Coadjuvante por sua atuação em “Django Livre”. O longa, que foi indicado em cinco categorias, provavelmente não levará nenhum prêmio hoje. A única categoria em que realmente pode levar a estatueta é a da indicação de Waltz. Conhecida por ter desbancado o ex-marido James Cameron e levado os principais prêmios da Academia em 2010 com “Guerra ao Terror”, a diretora Kathryn Bigelow volta à disputa com “A Hora Mais Escura”, um novo filme com trama de guerra indicado em cinco categorias, e que tem boas chances de receber Roteiro Original e Melhor Atriz. Surpresa. Ainda assim, uma pequena jovem tem chamado todos os holofotes para si. Quvenzhané Wallis é a mais nova mulher indicada na categoria Melhor Atriz da história do Oscar. Com apenas nove anos, ela carregou a história de “Indomável Sonhadora” nas costas e merece o prêmio. Entretanto, é improvável que a Academia o entregue a ela exatamente por ser muito nova. O longa independente que furou o cerco comercial de Hollywood também recebeu outras três importantes indicações: Melhor Filme, Diretor (para o estreante Benh Zeitlin) e Roteiro Adaptado. E, sim, tem chance nas três. Finalizando as indicações a Melhor Filme, há um drama francês de causar incômodo que foi considerado por muitos o melhor filme do ano. “Amor”, de Michael Haneke, concorre a outras quatro estatuetas, incluindo Diretor, Melhor Atriz e Roteiro Original, sendo a última categoria uma grande possibilidade. Edição cheia de peculiaridades Mesmo com menos indicações que “Lincoln”, “Argo”, filme do ator e diretor Ben Afleck, é o favorito a Melhor Filme da noite. Se levar a estatueta, o longa vai entrar para a história como a quarta produção a receber o prêmio sem concorrer na categoria Melhor Diretor. Quando a lista de indicados foi anunciada, no início de janeiro, a ausência do nome de Ben Affleck entre os concorrentes a Melhor Diretor gerou discussões e opiniões diversas em Hollywood, já que ele venceu prêmios como o Globo de Ouro, o Bafta e o do Sindicato dos Diretores exatamente na categoria de direção. Outros. Além de “Argo”, outros três diretores que concorrem na categoria Melhor Filme não foram indicados para Melhor Direção. São eles: Kathryn Bigelow, por “A Hora Mais Escura”, Tom Hooper, pelo drama musical “Os Miseráveis” e Quentin Tarantino, por “Django Livre”. Particularidades. Nesta edição, também estão reunidas a atriz mais jovem e a mais velha a concorrerem na categoria Melhor Atriz. Emannuele Riva, que completa 86 anos hoje (dia da premiação) e Quvenzhane Wallis, que possui 9 anos. Seth MacFarlane, que será o apresentador do Oscar 2013, também é um dos concorrentes. Ele foi indicado na categoria Melhor Canção Original por “Everybody Needs a Best Friend”, da trilha de seu filme de estreia, “Ted”. Antes dele, apenas duas pessoas competiram no mesmo ano em que atuavam como apresentadores: Paul Hogan, como Roteirista por “Crocodilo Dundee”, em 1987, e James Franco, como ator por “127 Horas”, em 2011Clique paraver a lista de indicados.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
OSCAR - Para fazer adulto chorar
Em 'Indomável Sonhadora', a atriz mais jovem a concorrer ao Oscar carrega o filme inteiro nas costas -e não decepcionaAssista ao trailer aqui.Quando a cena fecha um close up no rosto da jovem atriz Quvenzhané Wallis, com seus cabelos espetados, a sensação que dá é de que a câmera está trabalhando para ela, e não o contrário. A distorção quando o mesmo close é feito na menina de vestido azul e cabelos obrigatoriamente ‘domados’ no abrigo é de abrir um buraco no estômago. Wallis sabia perfeitamente o que estava fazendo. Você nunca viu nada como “Indomável Sonhadora”, filme do diretor estreante Benh Zeitlin que concorre a quatro Oscars, incluindo Melhor Filme, Diretor e Melhor Atriz para Quvenzhané Wallis, a mais jovem indicada ao prêmio da história, com apenas nove anos. Na história, Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) é uma menina de apenas 6 anos que vive com o pai doente em uma comunidade miserável isolada às margens de um rio na Louisiana. Alcoólatra e explosivo, ele se recusa a procurar ajuda médica. Sempre preparados para a ‘Banheira’ – que é como chamam a comunidade — sumir sob a água, pai e filha acabam vivendo entre barracos e o barco improvisado na caçamba de uma caminhonete. Ao som de folk, com ares de documentário e câmeras de mão, o longa surpreende logo na primeira cena, quando a voz da jovem narradora começa a expressar pensamentos. Diferente do que Hollywood costuma fazer com suas crianças prodígio, “Indomável Sonhadora” é um filme construído completamente pela perspectiva de Hushpuppy e por isso é tão encantador. “Na Banheira tinha mais férias que no mundo inteiro”, diz a garota no prólogo, e a frase simboliza toda a forma de vida da comunidade. O povo, esquecido pelo governo e pelas pessoas da cidade (que construíram uma barragem separando os dois mundos), vive de forma primitiva, comendo o que a natureza oferece. Os dias na Banheira são sempre dias de festa, mesmo se alguém morrer, já que “na Banheira é proibido chorar”. Não há emprego com hora marcada, não há patrão, não há regras. Só sobreviver. Com título original parecido com “Bestas do Sul Selvagem”, a tradução brasileira tentou focar o imaginário infantil cheio de sonhos da pequena Hushpuppy e errou de primeira. O filme não trata de sonhos, mas de uma vivência que chega a ser folclórica dos personagens, que creem na existência de criaturas mitológicas que vão ressurgir com o derretimento das geleiras, os aurogues. A realidade dura da comunidade pelos olhos da garota não tem nada de sonhador ou sentimental. Hushpuppy precisa cuidar do pai, que o tempo todo lhe ensina o quanto a vida é cruel. Wallis. Zeitlin encontrou em Quvenzhané Wallis o tom perfeito para seu filme. O diretor foi extremamente ousado ao apostar o peso de toda a produção nas costas da garota. No entanto, ela, como em uma cena do filme, abriu o peito, mostrou os músculos e disse: “Eu sou o homem aqui”. E como gente grande, o fez. O longa fez lembrar o estilo de filme do diretor Terrence Malick (“A Árvore da Vida”) e também “Onde Vivem Os Monstros”, mas ainda assim é uma obra única. Digna, mesmo que com pouca possibilidade, de Melhor Filme, e forte candidata a Roteiro Adaptado e, sim, a Melhor Atriz, mesmo que seja improvável a Academia premiar uma criança, o que seria impreterivelmente merecido. Ficha: Indomável Sonhadora Diretor: Benh Zeitlin Indicações: 3 Oscar Avaliação: Excelente Chances de receber Melhor Atriz e Roteiro Adaptado
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
OSCAR - ‘Ao ver o corpo, ela chorou’
A Hora Mais Escura, indicado a cinco Oscars, concentra numa mulher sentimentos dos EUA por Bin LadenTrailer aqui.
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Uma tela preta e sons, diversos sons. Do outro lado da linha, alguém atente ao telefone. Uma jovem diz que algo aconteceu, que não consegue ver nada, está muito calor. A atendente pede calma e afirma que o resgate chegará logo. Ela insiste sobre o calor, pede socorro e, em certo momento, as palavras cessam.
O espectador sabe, mesmo no escuro, que aquela voz perturbadora é de alguém que acabou de morrer no World Trade Center e que o dia é 11 de setembro de 2001.
“A Hora Mais Escura”, filme da premiada diretora Kathryn Bigelow e indicado a cinco Oscars, retoma a história dos ataques terroristas sofridos pelos EUA naquele 11 de setembro e que deram início à uma época de medo e paranoia do povo americano em relação ao inimigo, onde todos os esforços foram realizados na busca pelo líder da Al Qaeda, Osama bin Laden.
Nesse contexto, Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que está por trás da captura de Laden. Ela participa efetivamente da operação que levou militares americanos a invadir o território paquistanês, com o objetivo de capturar e matar Bin Laden.
Trama. Em “A Hora Mais Escura”, Bigelow retoma o assunto de “Guerra ao Terror” (que levou o prêmio de Melhor Filme em 2010, além de outras cinco estatuetas) por um outro ângulo. Enquanto ela focava o ‘mãos a obra’ da guerra no seu longa anterior, com um protagonista que trabalha desarmando bombas, neste filme ela resume a luta para encontrar um homem nos computadores -- e torturas pouco forçadas.
O longa gera a reflexão do cominho que a tecnologia está seguindo e questiona: se uma guerra pode ser feita por computadores, de que forma saberemos que ela acontece?
Em “A Hora Mais Escura”, a violência fica quase toda na cabeça do espectador. Você vê o rosto machucado do torturado, mas não vê o soco sendo desferido. Nesse ponto, a diretora soube magistralmente equilibrar o seu objetivo e a trama, que precisava mostrar os conhecidos “interrogatórios reforçados”, mas não queria que fosse essa a lembrança mais marcante.
Dessa forma, Bigelow mantém uma inteligência fria durante todo o longa, fazendo os próprios torturadores parecerem apenas funcionários realizando com normalidade um serviço pelo qual foram designados.
Maya. “A agente da CIA que havia passado os últimos cinco anos tentando encontrar Bin Laden aguardava a chegada da tropa. Ao ver o morto, ela chorou”, escreveu Mark Owen no livro “Não Há Dia Fácil”.
Indicada a Melhor Atriz, Jessica é Maya, a tal agente da CIA responsável por encontrar o terrorista. Ela carrega todo o sentimento do país dentro de si e o faz de forma contida, mas que torna as reações, as frustrações e a evolução do personagem perceptíveis.
O filme é longo e cansativo se quem o assistir não se informar anteriormente, mas tem grandes chances de receber Melhor Roteiro Original, Melhor Filme e Melhor Atriz.
Ficha
A Hora mais Escura
EUA, 2012
Diretor: Kathryn Bigelow
Indicações: 5 Oscar
Avaliação: Ótimo
Chances de receber Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
OSCAR - Redenção em forma de melodia
Indicado a oito Oscar, 'Os Miseráveis' é um deleite para os olhos e um teste de resistência aos ouvidosTrailer aqui.Certa vez, Ruy Castro escreveu uma opinião interessante sobre musicais. O jornalista citou pessoas que criticam o alto grau de profissionalismo dos cantores que fazem os filmes parecerem irreais soltando a voz no meio da rua, sendo acompanhados por outros que se contagiaram, passarinhos que assoviam no ritmo da melodia e mendigos dançarinos que, no fundo, saíram da academia Bolshoi. Quanto a isso, o escritor deu seu sermão ríspido, respondendo: “É assim porque é um musical”. E no quesito musical, o longa “Os Miseráveis”, indicado a oito Oscars, é o cúmulo do cantante. O filme é uma adaptação da Broadway, que por sua vez foi inspirada na clássica obra do escritor Victor Hugo. A história se passa em plena Revolução Francesa do século 19. Jean Valjean (Hugh Jackman) é um presidiário liberto que resolve fugir das obrigações da condicional e começar uma nova vida de redenção, mas é incansavelmente perseguido pelo inspetor Javert (Russell Crowe), um homem que acredita na lei acima de tudo. Provavelmente cansado dos 119 minutos de gagueira de George 6º em “O Discurso do Rei”, vencedor de quatro Oscars em 2011, o diretor Tom Hooper resolveu que as palavras não seriam mais seu problema e transformou praticamente todas as falas de “Os Miseráveis” em música. Atuações. Em “Os Miseráveis”, atores que não são profissionais em canto soltam o gogó ao vivo, sem gravações externas em estúdio, e transformam a trama em uma melodia dramática eterna. E põe eterna nisso: o filme tem quase 2h40 de cantoria sem fim. Ainda assim, a força física do longa é impressionante. Dividido em três atos, temos um Jean Valjean fugitivo, um segundo Valjean que recupera o fôlego da vida com a família, e um terceiro Valjean em seus últimos instantes de vida, após um breve tempo de paz. E, no meio de três épocas distintas, o espectador vê o ator Hugh Jackman no momento mais amadurecido de sua carreira. Anne Hathaway está praticamente com as mãos coladas à estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante por seu solo em close up de “I Dreamed a Dream”. Russell Crowe parece um tanto desconfortável no papel de Javert, mas ainda assim faz uma bela performance. Destaque para o casal de picaretas Madame e Monsieur Thénardier, que dão humor e ritmo ao ‘longo longa’ em diversos momentos com a interpretação sempre marcante de Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen. Já o par romântico Cosette e Marius, mesmo contando com a voz perfeita de Amanda Seyfried, não vingou. Um show infantil a parte também ficou a cargo de Daniel Huttlestone como Gavroche, o garoto que recolhe balas entre os móveis das barricadas da Revolução. Com um elenco de não cantores tão bem afinado –- mesmo que desafinado em algumas notas --, Hooper transformou a miséria em espetáculo a ponto das cenas ficarem belas e ricas, por mais sujas que estejam. Por fim, temos um filme de cenários e figurinos belíssimos, classudo e pesado, com direito a interpretações memoráveis e uma overdose musical de dar vontade de não ouvir nada por dias após os créditos finais. Enfim, o espectador deve ver o longa com o espírito de quem vai a uma ópera. Chances. “Os Miseráveis” é digno de receber Melhor Filme, mas não deve levar: para ser bom não se pode ser cansativo demais. Ainda assim, a aposta é alta para Melhor Figurino e Mixagem de Som (já que não deve ter sido fácil juntar todas as vozes gravadas durante as cenas e encaixar a melodia). Hugh Jackman provavelmente vai estar em um páreo duro contra Daniel Day-Lewis (“Lincoln”) para Melhor Ator. Ficha Os Miseráveis, Reino Unido, 2012 Diretor: Tom Hooper Indicações: 8 Oscar Avaliação: Excelente. Forte candidato aos prêmios de Melhor Ator e Melhor Figurino
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