terça-feira, 7 de junho de 2011

Entre assuntos ‘distraíveis’ e a busca pelo amor recíproco infeliz


As pessoas costumam me dizer que eu possuo o dom de distrair meus próprios assuntos, de perder o foco e desviar a conversa para lugares que nem eu conseguiria explicar. Da mesma forma que minhas palavras são marcadas pela fuga da objetividade eu tenho, em algum lugar da minha memória, uma caixinha que guarda o assunto inicial para que ele não seja completamente perdido e possa ser retomado em algum momento da conversa. Retomar um assunto distraído costuma surpreender mais as pessoas do que o fato de distrair-se dele. Foco, Tici, foco. Ontem assisti Romance, um filme nacional de 2008 que conta com basicamente um elenco de monstros e um dos meus diretores preferidos, Guel Arraes. Após ver o filme, deitei na minha cama para dormir e comecei a enumerar em rascunho no celular assuntos distintos que não poderiam ser distraídos se eu fosse escrever sobre o filme. Aqui estou eu, tentando ser coerente com tanto a dizer.

Começo então pela paixão por filmes nacionais. Chega a ser ridículo o sorrisinho bobo que eu fico na boca quando vejo algo como Romance na minha tela, ou seja, serei suspeita até a última linha desse texto.

Quando eu era criança a reclamação habitual era o som do cinema nacional e, há pouco, ouvi uma amiga falar que hoje as pessoas reclamam dos roteiros, das histórias contadas. Então eu provoco quem quiser discutir comigo a encontrar uma história mais bem contada, encaixada e boa de ver que Romance. O filme mostra o quanto todos nós buscamos o amor, mas não aquele amor de final feliz, mas àquele construído pelos obstáculos, que dói e que não tem possibilidade de acontecer: o amor correspondido infeliz.

A partir do clássico que gerou todos os grandes romances da literatura -entre eles a possibilidade de ter sido a inspiração para Romeu e Julieta- Wagner Moura e Letícia Sabatella protagonizam a reconstrução de Tristão e Isolda sobre o palco para a história se tornar real fora dele. Construído com diálogos bem arquitetados que brincam com o texto rebuscado de peças teatrais em meio à história de amor do casal, Romance relembra em nós aquilo que quem um dia se apaixonou sabe: O quanto o amor é brega.

E ninguém esperava essa consideração, eu sei.

Na verdade o que eu ia escrever é o quanto o amor é finito, mas o descrito acima não deixa de ser verdade. Em Apenas O Fim, filme de Matheus Souza, o personagem Tom, de Gregório Duvivier diz uma frase que eu adoro quando sua namorada reclama que ‘falar de amor é tão clichê’. Ele responde: “Eu acho que falar que falar de amor é clichê é que é clichê.” A pergunta é, existe assunto tão batido quanto amor? E existe alguém, algum dia na vida, que não pense nele? É retórica. O interessante de Romance é a forma com que o filme declama e projeta a ideia de que só o amor impossível é amor, que nós amamos não o amor, mas a paixão e a instabilidade constante dela. Afinal, histórias de amor com final feliz só começaram a ser escritas a partir do século XII e até hoje nada é tão romântico e trágico quanto Romeu e Julieta. E, no fim, “todo amor é verdade e representação ao mesmo tempo”.

O diretor e um dos escritores do longa, Guel Arraes, de O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro, não me decepcionou novamente e vem fazendo no Brasil o que muita gente só enxerga em filmes internacionais, criando uma identidade. Seus filmes tem o seu DNA, é visível. Além de adorar o Marco Nanini, o que não é difícil, ele busca em suas produções assinar diálogos inteligentes, dinâmicos e montar cenários tipicamente brasileiros. Encenando a tríplice Cinema X Teatro X Televisão, ele consegue, em Romance, intercalar provocações e verdades quanto ao meio e, quando tudo parece que vai ficar só no eixo Rio-São Paulo ele nos leva ao Nordeste para as filmagens do Tristão e Isolda brasileiro, em que os trovadores e senhores feudais se tornam os músicos de cordel e coronéis e Tristão deve ser interpretado por um verdadeiro nordestino.

Vale lembrar que eu sempre fico encantada com os elencos de filmes nacionais que, se duvidar, muita gente nem sabe que estão na prateleira da locadora da rua de casa. Quando Hollywood resolveu refilmar 11 Homens e Um Segredo o burburinho foi geral porque era a produção com o maior número de estrelas da atualidade. Aqui, no Brasil, toda produção tem o peso artístico de, pelo menos, meia dúzia de monstros da atuação e nem por isso as pessoas fazem questão de ir ao cinema ou alugar o filme. Ter Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, José Wilker e Marco Nanini projetados na mesma tela é algo que todo mundo, um dia, deveria poder ver. É Tony Ramos e Gloria Pires sendo muito maiores e menos creditados que um Sr. e Sra. Smith. É o que a gente tem de melhor se reunindo em uma coisa só e sempre é algo muito bom. O Brasil não é mestre das tecnologias de cinema, das produções que custam a arrecadação pública de uma cidade ou dos grandes números de bilheteria, mas filmes como os de Guel me fazem ter cada vez mais certeza de que uma coisa que fazemos e fazemos bem é contar uma boa história, ou protagonizar um bom Romance.

Minha enumeração não adiantou muito, os assuntos continuam se/me distraindo. Bom, paciência, um dia eu ainda chego lá.

Bom dia para quem é de bom dia e eu desejo a todos um final infeliz. Afinal, “os amores desgraçados costumam render belas histórias”.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Rio – O brasileiro para não brasileiros

Quando assisti ao primeiro A Era do Gelo saí do cinema com um sorriso de orelha a orelha e na boca aquele gosto de “quero mais”. A trilogia amadureceu, ganhou o mundo e um brasileiro entrou nessa onda se tornando uma espécie de orgulho da nação por conseguir atravessar a linha imaginária que impede a maioria dos nossos grandes de chegarem aonde ele chegou, Hollywood. Carlos Saldanha virou uma figurinha repetidamente acompanhada de perto por mim, não por fazer um bom trabalho (o que, é óbvio, o faz), mas por ter não só um pezinho no samba, mas também o coração.

Como qualquer bom brasileiro fui ao cinema ver Rio praticamente regada a preconceito, esperando uma história mal contada, um retrato pornochanchado e um samba americanizado de uma nota só. Até concordo com todas as críticas que li em que afirmavam que o filme era exatamente isso, mas mesmo assim fiquei um tanto quanto irritada pelas acusações e, por final, pensei: “Brasileiro não desiste nunca mesmo, nem de ser insuportavelmente chato.”

Pra quem não conhece a história ela é bem brasileiramente clichê. Blu, a última arara azul macho da sua espécie é extraviado em meio a um contrabando de animais silvestres e acaba se tornando animal de estimação de Linda, uma tímida nerd, bem nerd, de Minnesota. Ela conhece Tulio (que vale ressaltar que é dublado por Rodrigo Santoro em inglês, certo? Na verdade, na versão original e na em português) que a convence a levar seu bichinho ao Brasil para acasalar com a última fêmea da espécie e perpetuá-la. Durante a tentativa de apresentação das aves elas são capturadas por contrabandistas e é aí que começa a sequência de fugas pelo Rio de Janeiro para que Blu reencontre a sua dona.

Seguindo os clichês, tudo acontece durante a semana de carnaval e a sensação que o filme passa é que o país vive para a “maior festa do mundo” (o que não é bem uma mentira em se tratando de Brasil). Como não poderia faltar também, nosso segundo ícone, temos uma cena de perseguição em paralelo a uma partida de futebol entre Brasil e Argentina e somos repetidamente obrigados a ver um Merchant espetacular dos pontos turísticos do Rio de Janeiro. Clichê, pastiche, pastelão. E daí?

Há um tempo li uma crítica do Ruy Castro sobre musicais e ele comentava que o cara vai, vê um musical e sai do cinema reclamando que é ruim porque ninguém sairia cantando profissionalmente no meio da avenida Paulista sendo acompanhado por outros cantores que, por acaso, estavam passando por lá e se contagiaram, por passarinhos que assoviam no ritmo da melodia e mendigos que, no fundo, saíram da academia Bolshoi. Quanto a isso o escritor dá uma patada simples, mas certeira perguntando ironicamente a ele mesmo: “Por que tem que ser assim se na vida não o é? Porque é um musical, idiota.” Claro, não necessariamente nesses termos.

Acho que Rio está para os brasileiros como quem não gosta de musicais está para eles, é puro preconceito. Na verdade depois de ler as críticas à animação eu cheguei a conclusão de que não há preconceito tão grande com o Brasil como o do próprio brasileiro. É obvio que o filme ia explorar os pontos turísticos do país, é óbvio que ia abusar do samba, é óbvio que iria abraçar os clichês. Primeiro porque o nome do filme é Rio e não, sei lá, “Fuga das Araras”, o foco não é a história, é a cidade. E mesmo assim o resultado ficou gostoso de ver. Eu não sei se alguém esperava ver um Tropa de Elite animado, mas fora do país o sistema cinematográfico é diferente e, por mais que tenha sido dirigido por um brasileiro, Rio não é uma animação exclusiva para quem nasceu aqui e, portanto, precisa ser, além de retratista e bonitinho, comercial. Cá pra nós, Tropa de Elite é nosso, é fantástico, é um dos meus Top 10, mas algumas cenas podem ser encaixadas em diversas histórias de diversos países pelo mundo. Tente encaixar Rio, as cores, a trilha que foi de Samba ao Funk singrando até pela Bossa Nova, o Cristo, o Pão de Açucar a qualquer outra história e não vai dar pé. É uma animação de cá para estrangeiros, não o contrário. É turística. E devíamos ficar muito felizes por ninguém ter sido seqüestrado no morro ou termos sido refletidos nas curvas de uma mulata sambando nua. Nós só fomos animados. E de forma caricata, como toda animação deve ser.

Quem for ao cinema ver Rio sugiro que vá sem preconceitos e com um olhar externo, vá como foi ver Madagascar, por exemplo, viajando para onde você não conhece. Aliás, usei o exemplo do longa para abrir uma ressalva de que os macacos ladrões de Rio lembram exageradamente os pingüins da franquia da Dream Works, isso foi bem chato.

Rio é uma animação que vale a pena assistir porque é simplesmente fantástica e gostosa de ver e porque não é nacional e não é estrangeira, é um ponto de equilíbrio que nós também devíamos começar a ter.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Cinema com gosto de chocolate meio amargo


Observe um relógio em contagem regressiva. Sinta a impotência de ver o tempo se extinguir e deixe a delicada e cruel hora que não se estica, que não se retarda te fazer perder o fôlego lentamente, como um minuto que demora a passar, mas que nunca se estende mais do que o seu tempo. Assista em câmera lenta os segundos que precedem a bomba que explode e abrace o desespero de só poder ver esse tempo passar. No final o que resta a cada um é o destino de uma só sentença que não pode ser questionada, a morte.

Pois o dead line da vida é o assunto lento e angustiante de Não Me Abandone Jamais, filme do diretor Mark Romanek, baseado no romance homônimo de Kazuo Ishiguro, que tem Keira Knightley, Carey Mulligan e Andrew Garfield no elenco. O filme foi apresentado na Mostra Internacional de Cinema de Londres no ano passado e despertou amores e frustrações na platéia. Pudera. Não que eu seja fã de coisas estranhas, mas, no meu caso –mesmo que ele te faça encarar sorrindo a possibilidade de suicídio- despertou a primeira opção.

A trama gira em torno da história de vida, ou da meia-vida dos três protagonistas. Educados em um colégio interno rigoroso com o bem estar e a saúde de seus estudantes os três aceitam, sem alarde nenhum, o seu destino: nasceram para ser doadores de órgãos. Filme futurista, certo? Não. Na verdade eles serem apenas defuntos com órgãos utilizáveis é o de menos. Incomoda, mas o buraco é ainda mais embaixo, é social.

O triângulo amoroso dos personagens traz à tona o egoísmo do ser humano e, para reforçar o conceito, Kathy (Carey Mulligan) fecha o filme com a frase: “O que não sei ao certo é se nossas vidas foram tão diferentes das vidas das pessoas que salvamos”. Não Me Abandone Jamais, para mim, não é um drama que mistura romance e clonagem, ele tem algo mais. Faz a gente pensar no quanto cada um de nós é capaz de fazer ao outro para ser melhor, para parecer melhor ou apenas para sentir isso. Pode parecer piegas, mas a construção de cada diálogo e a lentidão entre uma fala e outra é como um tempo dado a nós para pensarmos na brutalidade, mesmo que sutil, da realidade de um povo que constrói novas tecnologias e busca respostas não pelo bem de todos, mas de si. Um por si e todos por um, não é esse o lema?

O filme faz refletir ainda sobre o quanto somos ligados a alguém, a alguma coisa e até ao que tentamos ser. Talvez seríamos pessoas melhores se, como no longa, aceitássemos que somos apenas humanos e que fazemos parte de um ciclo. Possivelmente não sofreríamos tanto com nossas perdas. Claro, é utopia hipócrita da minha parte, logo eu, que não me desfaço nem de cartinhas de colegial.

Fora o sentimento, o filme me remeteu a vários sucessos do gênero como A Ilha, Gattaca, Equilibrium e até A Fortaleza, sabe? Aquele clááássico ótimo em que o Christopher Lambert é enviado a uma prisão de segurança máxima. A idéia de ter a vida controlada por outras pessoas já foi muito abordada na Sétima Arte, mas o que há em comum em todos esses filmes é que os personagens lutam para ter o controle de suas vidas de volta, o que não acontece em Não me Abandone Jamais. Eles aceitam o destino de morrer para salvar um zé-alguém, mesmo que você, espectador, deseje uma reviravolta até os últimos minutos.

De qualquer forma, é impossível assistir a Não Me Abandone Jamais e, ao fim da projeção, não ter aquela sensação de “cadê meu chão?”. É como sentir vontade de comer chocolate e só ter uma barra de meio amargo. É doce e é o contrário. O filme não é fácil de digerir. Então sugiro que seja visto em um dia comum, sem grandes acontecimentos bons ou ruins e sem uma janela do 25º andar por perto (Vai que dá vontade!). E recomendo o longa porque é sutil, doce e mostra que algo pode valer a pena na sua vida só pelo simples fato de ter acontecido com você. Mais ou menos aquela coisinha clichê que diz que o tempo que as coisas duram não é importante e sim a intensidade. Ou bagunçando poetas eu diria “que seja eterno enquanto dure”, “posto que é chama”. Assim como a própria vida.

Não Me Abandone Jamais foi o vencedor do prêmio de Melhor Atriz (Mullingan) e indicado a Filme, Diretor, Roteiro, Ator Coadjuvante e Atriz Coadjuvante do British Independent Film Awards.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A representação do belo pelo feio na ponta do gatilho


Semana passada fui ao cinema despreparada, sem ter lido uma linha a respeito do que ia ver ou escutado uma crítica completa. Ouvi, sim, alguma coisa, mas ecoou na minha cabeça só um nome que parecia estar sendo repetido incessantemente, como se o filme fosse uma biografia: Johnny Depp. Para entrar no clima prefiro escrever que fui ao cinema na estréia de Rango, na sexta-feira, sem nem saber que era a estréia, só por ir, por um convite de última hora, e cometi um erro esquecendo de carregar comigo um acessório imprescindível para um bom faroeste, ou até obrigatório. Digamos que fui ver Rango infinitamente desarmada.

Para quem gosta de cinema ver um filme sem nem saber a trama é quase sinônimo de teoria do caos. Você sente como se estivesse caminhando no escuro, fica hiperativo, agoniado, roendo as unhas, fulo da vida e querendo que aquele sofrimento acabe logo para poder, no todo, entender as partes. E obviamente ler o cast. De qualquer forma, durante o longa eu só conseguia lembrar de uma ligação daquilo com a minha vida: as aulas de História da Arte que tive no primeiro ano de faculdade.

Nem bem na arte, mas na filosofia, Sócrates grifou em algum de seus escritos que “toda a beleza é difícil”. Seguindo nesse pensamento Platão afirmou que a beleza é determinada pela experiência de prazer suscitada pelas coisas belas. Lembro das aulas então, quando o professor escreveu no quadro a pergunta: “O que é belo?”. Bom, em meio a discussões que envolviam Gisele Bündchen e Michelangelo o ponto ao qual chegamos era exatamente acreditar que nem tudo que classificamos como bonito pode ser considerado belo e que o feio é tão idealizado quando o seu antônimo. Para finalizar as citações e retomar o Rango perdido, Giulio Carlo Argan, historiador e teórico da arte, escreveu que o feio é o belo decaído e degradado, mas isso não quer dizer, necessariamente, que tenha deixado de ser belo, acredito.

Do início ao fim de Rango eu me impressionei com o quanto eu achei tudo tão belo e mais feio ainda. A animação é simplesmente a melhor que eu já vi e deixo a dica para que as pessoas esperem sair do cinema e aluguem o blu-ray. Deve ser uma experiência única.

Os personagens são detalhadamente perfeitos em toda a sua construção e cheguei a me perguntar se os poucos humanos que aparecem não poderiam ser criados em live action. É humanamente impressionante. Depois de assistir, claro, fui me informar e achei interessante a idéia de que os dubladores fizeram as cenas caracterizados como personagens e em cenários montados, interpretando mesmo. Aí, enquanto Depp cedia sua voz inconfundível para o camaleão sem identidade os animadores assistiam essas gravações e reconstruíam as expressões dos donos das vozes nos personagens. O resultado é belo, é belo, é belíssimo! O camaleão é algo muito parecido com um Jack Sparrow verde.

Fora a beleza o filme é bem estranho.

A trama é simples e, na minha opinião, se fosse feita como um longa-metragem normal, diga-se com gente e não animado, teria o mesmo impacto. FORA A BELEZA. Nós estamos tão acostumados com animações bonitinhas repletas de personagens caricatos com olhos enormes naquele estilo japonês digno do carisma mundial que quando vemos algo diferente a expressão é de “ahn?”. O filme é feio, sabe? Feio mesmo. Os bichos são feios, as cores são feias, é tudo meio assustador. Mas o feio vai além. Depois de assistir Rango a gente sente falta da ausência de memória da Dory, das trapalhadas do panda Poh, da tagarelice do Burro e do Buzz em versão mexicana. Os personagens de Rango são tão perfeitos 'animadamente falando', tão bem feitos, que falta algo não só no camaleão, mas em todos eles que os deixa ainda mais feios historicamente, falta personalidade. Falta profundidade, ou aquilo que diferencia um de outro. A própria chamada de um dos cartazes do filme diz “Porque se disfarçar se você pode se destacar?” e quando pensamos em um camaleão é instantâneo imaginar algo como o pequeno Pascal de Enrolados se camuflando em tudo. Em Rango, o fato de ele ser um camaleão não o diferencia de uma iguana. Aliás, de um lagarto qualquer. Além disso, os personagens de faroeste são, por si só, tão caricatos que, na animação, todos eles acabaram por ter características iguais e como diz a moral de Os Incríveis: “quando todo mundo for super, ninguém vai ser.”

De qualquer forma Rango não é, nem de longe, um filme para crianças. A não ser que você esteja com uma vontade louca de acordar de madrugada com seu filho ao pé da cama dizendo que teve um pesadelo com uma cobra usando chapéu de cowboy. Mesmo as ligações que a animação faz com grandes filmes de faroeste e até com Indiana Jones podem não ser percebidas nem por adultos. Ou seja, é demais para gente grande e é pouco para gente pequena. Ganha pela trilha sonora do fantástico Hans Zimmer que fecha a parceria tripla pós-Piratas do Caribe com o diretor Gore Verbinski e seu pupilo ícone Jack Sparrow, Johnny Depp.

Por fim, Rango acaba por ser a arma de uma bala só que atira sem alvo, que perde o rumo do conteúdo. Mas é belo, belo, belíssimo.


sábado, 18 de dezembro de 2010

Um capítulo para não ser esquecido: "Claquete - Cinema do Argumento à Estreia"

FADE OUT

Do argumento à estreia, um objetivo singular: encontrar o público.

O cinema brasileiro, sempre rico em identidade e original em ideias conquista espaço na vida dos brasileiros aos poucos. Diferente do mundo do instante Hollywoodiano, que tem cerca de 9 estreias semanais, no Brasil a busca incessante é pela viabilidade financeira e pelo seu público.

A sétima arte nacional hoje depende das leis de incentivo e é por elas que ela existe. Mas depende também da força de vontade de pessoas que doam o melhor de si em busca de, com baixos orçamentos – comparados aos blockbusters do alto escalão – atingir grandes públicos e tornar real o que é eterno, a história. São centenas de profissionais que dedicam anos em pré, produção e pós para que uma obra seja concluída e que possa ter seu real começo: a plateia.


Na dramaturgia o cinema interpreta o papel perene, aquele que guarda e revela ao mesmo tempo e para sempre a história idealizada, filmada e narrada. No Brasil, o cinema que conquistou plateias com histórias de um caipira jeca e sobreviveu à falta de dinheiro, incentivo e público com as risadas de um quarteto inesquecível, Os Trapalhões, hoje gera filas em algumas estreias memoráveis e cadeiras disputadas.

Temos um cinema que exibe na comédia sua prosa e no drama social sua poesia. Que luta para alcançar seu público, ao passo que muitas vezes critica filmes de sucesso. A sua identidade é notória para os olhos do mundo e, muitas vezes, incompreendida pelos nossos.

Para nós falado em português e para os estrangeiros falado em brasileiro, nossa Sétima Arte é composta por uma aquarela de obras-primas desconhecidas e raras nas salas de cinema como OLHO DE BOI, de Hermano Penna, A MÁQUINA, de João Falcão, ou DURVAL DISCOS, de Anna Muylaert. Mas ainda sim obras que conquistam estrangeiros que falam todas as línguas do mundo, que assistem aos filmes dublados, com legendas, não importa.

No compasso das boas ideias os profissionais carregam consigo o ardor de sonhar o impensável e realizar o inconcebível para muitos: convencer que milhões gastos com cinema são bilhões ganhos em formação humana de uma sociedade. A nossa.

Frente ao ‘estrelismo’ de poucos, surge a sensibilidade humana de muitos que falam de seu trabalho com seriedade e naturalidade e buscam cuidar daquilo que necessitam e que, perceptivelmente, amam: seu ofício, sua arte.


As luzes ainda não se acenderam, mas o filme já terminou. Minutos de melancolia que pedem mais uma lágrima, mais um sorriso, mais uma gargalhada ou um respirar fundo para conseguir raciocinar melhor. Mais uma surpresa, uma emoção. Ao entrarmos em um cinema o resto do mundo para, os problemas cessam e nos permitimos embarcar em uma nova realidade, não tão real, mas muito mais próxima de nós que do resto do mundo.

A emoção de ler FIM na gigante tela, ao invés de THE END é quase sufocada por luzes que se acendem e nos convidam discreta, porém duramente, a deixarmos a sala que em nossas memórias ainda possui aquele carpete escuro, poltronas vermelhas e cheiro de pipoca. Somos então a pequena plateia que carrega um agradecimento singelo a cada um daqueles nomes que surgem na tela com fundo preto e que auxiliaram, de algum modo, a contar aquela história.

São mais de 100 anos de Sétima Arte que ainda fazem a magia do cinema ser algo inexplicável, que não agrada apenas aos olhos, mas a mente, ao coração. É também uma arte de moldar sentimentos e construir vidas artesanalmente, montadas com alicerces de sonhos tão próximos da realidade que chegam a confundir.

A nós, espectadores, resta a luz que indica a porta de saída e aquela vontade de novamente ouvir as vozes, ruídos, notas musicais. Ver as cores, as luzes, as roupas, os sorrisos transformando uma sequência de minutos em uma sequência de suspiros.

De nós, cinéfilas, jornalistas e plateia, uma salva de palmas a todos os profissionais, genuinamente brasileiros – ou mesmo adotados por nós – que colaboram para fazer de uma grande história um filme e de um sonho um livro. Ou vice-versa.


O texto acima foi extraído do livro-reportagem “Claquete – Cinema do Argumento à Estreia”, produzido em 2009 como trabalho de conclusão de curso de Jornalismo pela minha sempre parceira Marianna D’Amore e eu. O capítulo em questão encerra o conteúdo do livro.

Conheçam outros textos da D'Amore em http://brazilianfilmfestival.com/blog/
Quem quiser ler o Claquete, entre em contato com uma de nós.




sábado, 20 de novembro de 2010

Harry Potter e a geração que não gostava de ler


Há dez anos foi lançado no Brasil um livro que muitos não gostam, muitos criticam, alguns não entendem e uma legião aclama. Há dez anos eu tinha 13 de idade e, na época, já era uma leitora assídua de boas histórias. Mas eu não era o senso comum, talvez nem a exceção, não sei me classificar. Hoje, para descrever meus pensamentos voltarei aos 13 anos do meu irmão gêmeo, só assim posso falar (sem querer generalizar) de uma geração inteira. Enquanto eu cresci em meio a gibis da Turma da Mônica e histórias fantasiosas ele gostava mesmo era de destruir coisas. Na verdade, desmontar e remontar para conhecer, mas lembro que ele nunca conseguia remontar e os eletrodomésticos, carrinhos de controle e bugigangas eletrônicas se tornavam algo muito parecido com lixo. Era lindo, mas devastador. Lembro de um dia em que minha mãe quase teve um ataque quando o encontrou no chão da cozinha, desmontando um ventilador. Normal? Claro, se não estivesse ligado na tomada enquanto o fazia.

Meu irmão é um exemplo perfeito de como eu classificaria a Geração Y, a dele, consequentemente a minha. Ligado no 220 e com todas as 'conecções' existentes em modo online, eu tenho a impressão que o cérebro dele raciocina tão rápido que o corpo não acompanha. Vai atrás do que quer e consegue. É criativo, é inovador. Ainda guarda aquela facilidade de trabalhar em equipe que vem de outras gerações e se perde nesses tempos, mas se vira maravilhosamente bem sozinho. Cresceu jogando bola, vendo o VHS passar para o DVD e a fita para o CD. Brincando na rua, construindo cabanas, subindo em árvores. Vídeo game? Teve. Um Super Nintendo de soprar cartuchos que até hoje tem uns joguinhos que eu adoro.

Meu irmão cresceu em uma geração que não via muita graça na literatura que a escola mandava ler e que quando questionado dizia: “Não, eu não gosto de ler”. E lá estava ele de volta as árvores e eletrodomésticos ligados nas tomadas.

Foi com 15 anos que me apresentaram a história do bruxo londrino da autora inglesa J. K. Rowling e quando eu passei o livro para frente, para o meu irmão, uma coisa que eu nunca tinha visto aconteceu e foi devastador tanto quanto com os eletroeletrônicos. As 264 páginas foram devoradas em menos de dois dias.

Parecia ser um acontecimento único e que tinha parado por ali, mas o que havia naquelas páginas de Harry Potter e a Pedra Filosofal criou nele um hábito, e o meu irmão que nunca ligou muito para a palavra escrita sem figuras adquiriu o gosto pela leitura. “Mas é só ficção”, alguns diriam. Eu prefiro chamar apenas de literatura, que ensina a escrever assim como fazem os grandes clássicos que ele não queria ler na escola.

Na semana passada estreou mundialmente nas telonas a primeira parte do fim do que despertou o gosto de ler em uma geração. Harry Potter e as Relíquias da Morte parte I arrecadou mais de $100 milhões em apenas dois dias de exibição nos Estados Unidos e, mesmo ainda não tendo muitos números divulgados, no Brasil eu sei que não será diferente. Mas eu não vim falar sobre o filme, o Google está aí para isso. Eu resolvi escrever hoje para levar ao conhecimento de algumas pessoas -que não enxergam- a importância desse romance para mim, para o meu irmão e para a geração Y.

Harry Potter é muito mais do que uma história fantasiosa de magia, vassouras que voam, elfos domésticos e bem contra o mal. Ele, o livro, é um marco da descoberta pessoal de diversas crianças/adolescentes (muitos hoje já adultos) desse gosto pela leitura, pelo ritual de ler, de sentar em um sofá ou deitar de bruços em uma cama confortável com a luminária acesa, abrir um livro e deixar que a imaginação recrie o que nele vem em forma de palavras. E acreditem, o ritual não é enjoativo. A posição cansa, precisa de alteração constante, mas a leitura segue horas a fio, madrugadas a fio até os dias de hoje.

Nesse novo filme, o penúltimo, baseado na primeira parte do sétimo e último livro da série, não é mais a história que prende minha atenção como mágica, como quando eu vi o primeiro filme em 2001. É algo que, visto daqui para frente, alugando ou comprando todos os filmes de uma vez, será perdido. É o tempo. Como se tudo ‘magicamente’ tivesse crescido. A geração que aprendeu a gostar de ler com Harry Potter acompanhou arduamente ano por ano o lançamento de cada livro, de cada filme e, assim como os personagens neles registrados também cresceu e cresceu com fome de leitura.

Pensando nisso perguntei para a minha mãe sobre a geração dela, a “X”, que acompanhou os festivais de MPB e é conhecida por trabalhar muito, pela racionalidade, por agir em equipe e pensar em família. Sem querer generalizar ela pensou, pensou, e me disse: “Acho que a maioria da minha geração não gosta de ler”.

Agora já se fala de uma nova era, a do Mc Donnald, do Wii, do Playstation, da TV interativa, da internet móvel. Meus pais cresceram lendo a ficção nos gibis, que meu irmão e eu pudemos acompanhar adaptadas para os cinemas enquanto líamos as histórias de bruxos cheios de princípios. .A nova geração, que brinco ser a geração do instante, já vai pegar tudo mastigado, desde as grandes informações mundiais até o velho Harry Potter crescido e comprimido em algumas horas em sua televisão que nem é mais LCD. Eu, na verdade, tenho o maior orgulho de fazer parte da geração que acompanhou tudo isso, que aprendeu a gostar de ler e que –acredito que não seja coincidência– é conhecida por sua criatividade. Eu só espero, sinceramente, que surjam novos Harry Potters, que possam aguçar a vontade de abrir um livro e deixar passar o tempo que hoje não se tem mais.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Religião, política, futebol E cinema não se discutem.

Ok, ok. Vamos começar tirando a teia de aranha do trenó do Cidadão Kane. Essa semana inventei uma válvula de escape e vi todos os filmes que estavam passando no cinema dessa grande cidade do interior do MS e pequena em relação as menores de São Paulo. Pasmem. Eram numerosos trêêês longas em exibição e, como se em algum lugar alguém ouvisse minhas preces, havia UM legendado.

Mas hoje não estou aqui para falar exatamente dos três, mas de situações que geram discussões, que geram opiniões contrárias, que geram críticas. Essa semana duas coisas me chamaram a atenção no mundo cinematográfico nacional, uma foi a indicação do longa Lula O Don... Ops, o Filho do Brasil pelo Ministério da Cultura como representante brasileiro candidato a uma vaga no Oscar e a outra girou em torno da produção e críticas da adaptação do livro do espírita Chico Xavier, Nosso Lar.
Brincadeiras à parte, Nosso Lar me encantou do início ao fim. Eu já havia gostado do filme Chico Xavier, mas admito que tinha receio do que podia ser Nosso Lar por causa das reconstruções, dos efeitos digitais e do uso do Chroma Key. Depois de ir ao cinema e encarar o desconhecido, vejo a experiência como um passo do Brasil para o futuro e fiquei muito orgulhosa do conjunto da obra. Primeiro porque estamos investindo em nós. Por mais que a trilha sonora e os efeitos digitais tenham sido criados por estrangeiros, vejo Nosso Lar como um ponta pé inicial, um teste, um aprendizado que, na minha opinião, está dando certo. Já aviso que vou repelir quem vier discutir comigo que Transformers é mais bem feito que Nosso Lar. Pudera, são 123 milhões de dólares A MAIS em produção. Isso não é discutível, nem comparável. O que vim dizer é que o longa teve o maior orçamento da história do cinema nacional até agora, R$20 milhões, deixando para trás a história do nosso quase ex-presidente, em que foi utilizado cerca de R$15 milhões. E o que isso quer dizer? Que está valendo a pena investir mais em cinema, que o brasileiro está vendo filmes nacionais.
Claro que estamos falando de um público que entra na classe das coisas indiscutíveis, a religião e os espíritas. Mas eu, que não me considero de uma única religião recomendo o longa a quem gosta de um bom filme. Ressalto a cena do Holocausto, achei fantástica. A trilha e a maneira como foi montada me emocionaram e em momento algum vi como falta de respeito a entrada no Nosso Lar das vítimas que carregavam como símbolo a estrela de Davi. Na verdade imaginei bem o contrário e, sinceramente, exatamente o que eu sempre acreditei, que existe apenas uma religião com diversas crenças, mas que, no fim, nos encontraremos no mesmo lugar, sejam Católicos, Protestantes, Espíritas, Budistas, Judeus, etc...
Enquanto eu buscava, após a sessão de Nosso Lar que assisti, o orçamento e críticas do filme para conhecer outras opiniões, percebi que havia um novo rebuliço no cenário de notícias sobre a Sétima Arte nacional. Cineastas criticavam, jurados defendiam e o Brasil ficava sabendo que Lula, O Filho do Brasil foi o filme escolhido para tentar concorrer ao Oscar.
Me desculpem os adeptos, mas antes de criticar penso que um filme, para ser escolhido para representar um país pode, inicialmente, ser escolhido pelo povo. O que não foi bem o que aconteceu. Para quem lembra, em janeiro desse ano, depois de meses de propaganda (quase apelativa, quase política), o longa não teve a repercussão imaginada e até mesmo o triste acidente do diretor Fábio Barreto chamou bem mais atenção no tapete vermelho. Eu vejo sim a grande figura internacional de Lula como um ponto positivo em tudo isso, como disse Fernando Meirelles em entrevista, é um rosto conhecido internacionalmente e isso é importante. Mas tivemos, nesse ano, tantos filmes bons que poderiam representar o país que não acredito que tenha sido a escolha certa. Uma sugestão? Suprema Felicidade, que traz novamente ao cinema Arnaldo Jabor depois de 20 anos sem dirigir. O filme está chegando aos cinemas agora, mas tem um trabalho e história fantásticos. Temos tantas montagens mais simples e igualmente belas nas telas (e sem apelo) que me pergunto se precisávamos mesmo que fosse a tentativa frustrada de um novo Dois Filhos de Francisco que deveria nos representar?
Conheço bem a frase que diz que religião e política não se discutem, mas o progresso que vejo no cinema nacional após Nosso Lar e o retrocesso que sinto com o Lula, o Filho do Brasil nos representando me fazem pensar que a política exercida de forma errada no nosso país pode estar alcançando o cinema, e perguntar “será que mandando nele também?”. É só algo que me incomodou. Mas eu espero sinceramente que não e que, como água e óleo não misturem política e cinema para que a nossa Sétima Arte não perca o que faz dela brasileira, a personalidade.



Ah, e o futebol nisso? Bom, hoje é quarta-feira, dia de jogo na TV e quem quiser procurar nos cinemas está passando Bróder, uma produção nacional com aquele jeitinho brasileiro que mistura a realidade das favelas, Copa do Mundo e amizade. Claro que não vai passar aqui, portanto, espero as críticas de vocês.